Maquina
de Destaque
"Ave Rara"
Modelo:
Volkswagen Modelo 111 - Standard Limousine
Ano:
1965
Proprietário:
José Andrade
Quantas vezes já ouvimos falar de uma história sobre a
compra do primeiro Carocha como simples carro de fim-de-semana? Aquele que só
precisa de um pequeno arranjo e está de volta à estrada?
Pois bem, esta poderia ser outra história igual a uma dessas, mas felizmente não
o foi.
1965
Estamos a 23 de Março de 1965 e em Wolfsburg saía da linha de montagem um
“Carocha” com o número de chassis 115 652 551. Vinha equipado com um motor
1200cc de 30 cavalos. O seu número era o 3 998 796, um dos últimos dessa série
(o fim da mesma deu-se com o número 4 050 000). No dia seguinte essa viatura
era entrega em Dusseldorf.
Nessa altura, Herr Stocker era pai pela segunda vez. Para comemorar o facto,
decide comprar um veículo novo para a sua esposa. A sua escolha recaiu sobre um
Volkswagen Modelo 111, Standard-Limousine, que por sinal era o acima referido.
Foi o segundo carro da família, rodando pouco nas estradas alemãs. Em meados
dos anos setenta, o seu exterior foi pintado de laranja, uma cor mais em moda na
época. Em 1977 foi transportado para a Ilha da Madeira, em Portugal, onde os
seus donos possuíam uma casa de férias.
A ausência de garagem é rapidamente resolvida pela cedência de um espaço numa
garagem dum vizinho.
Aí abafado, o “Carocha” ficaria à espera dos seus donos germânicos, que
duas vezes por ano veriam visitá-lo.
1995
Passados trinta anos da sua aquisição, Herr Stocker, numa visita à Madeira,
revela a sua intenção de vender o carro. Em conversa com o Sr. Andrade (genro
do dono da garagem), este revela-lhe que não estava disposto a gastar muito
dinheiro em baterias de 6 volts. Para o Sr. Andrade surgia-lhe a oportunidade de
comprar um transporte barato para a sua esposa. O carro do seu dia-a-dia era um
Datsun e de Volkswagens a sua simpatia era pouca ou nenhuma. Na realidade, este
nunca tinha prestado grande atenção ao “Carocha” que “hibernava” na
garagem da casa onde ele próprio vivia.
Stocker e a sua mulher, um pouco comovidos, entregaram-lhe as chaves e os
documentos, pedindo apenas ao Sr. Andrade que este cuida-se bem da sua
“filha”.
O plano a seguir seria o de pintar o carro numa cor mais discreta e dar-lhe uma
revisão.
Por essa altura, um amigo disse-lhe que se restaurasse o carro seria o ideal.
Poderia inscrever-se num clube de automóveis antigos e beneficiar dum seguro
mais barato.
A ideia pareceu-lhe boa e resolveu ir ao representante da marca com algumas
fotografias, com o intuito de obter informações que o ajudassem no restauro.
Lá a ignorância por semelhante modelo foi total e foi-lhe dito que o carro
estava bastante alterado.
Um pouco desanimado, dirigiu-se até uma loja que existia na altura,
especializada em Volkswagens e em veículos 4X4.
Os dois sócios receberam-lhe de braços abertos, mas o especialista em VWs
refrigerados a ar disse-lhe o mesmo: -"Um veículo muito incompleto e com
peças de outras séries.” Após esta breve conversa, este sai. O
Sr. Andrade volta a insistir com o outro sócio se não seria possível saber
mais sobre o carro e das suas características tão bizarras. Este respondeu-lhe
que o seu forte era o todo-o-terreno, mas indicou-lhe dois colegas que gostavam
imenso de “Carochas” e que talvez pudessem ajudá-lo, Hugo Pereira e Carlos
Faria.
Apresentou-se então no trabalho do Hugo Pereira, a quem o Sr. Andrade pôs ao
corrente do assunto, levando-o a ver o seu Standard.
Hugo Pereira já ouvido falar de “Splits” e “Ovais” standard, mas nunca
semelhante termo num veículo de modelo tão recente.
As Diferenças
Ao pormenor, o carro aparentava uma boa base de restauro. Nenhum traço de
grande acidente e raríssima ferrugem, sendo esta apenas superficial. Os 93.000
kms marcados no velocímetro eram os que apenas o carro tinha percorrido desde
novo.
Mas alguns pormenores intrigavam. Porquê que não existiam os cromados no
tablier, capot e estribos? Onde estava o buraco e a grelha para a buzina no
guarda-lamas direito?
Os puxadores interiores das portas e dos capots eram cinzentos e não cromados,
juntamente com os ventiladores. O forro do tecto era mais pequeno do que os
outros modelos da mesma época. A pala para o Sol do passageiro nunca chegou a
ser colocada. Nos buracos dos parafusos estão colocadas umas tampas em plástico
com aquele símbolo circular que todos nós adoramos. A forra da porta do lado
do condutor não tinha bolsa para os mapas e a traseira não possuía o
cinzeiro. O eixo não tinha amortecedor de direcção e o volante era o
utilizado nos “Ovais”. Os piscas da frente tinham a parte em metal pintada
da cor da carroçaria.
A pintura original ainda perdurava no interior, em contraste com o laranja
exterior. Os tapetes originais em borracha apresentavam-se em excelente forma. O
estofamento de fábrica ainda lá estava e era muito estranho: metade em napa,
metade em tecido.
A conclusão só poderia ser uma, a de que esta viatura estava no seu estado
original, tirando o facto da cor exterior. Com a presença na ilha há mais de
vinte anos, e apenas com visitas esporádicas do electricista para a mudança de
bateria, não seria de esperar que anteriormente Herr Stocker tivesse feito o
seu carro parecer mais velho e até mais feio. A tendência na época era a de
tornar os “Carochas” o mais parecido possível com o das últimas séries.
O Sr. Andrade finalmente começou a acreditar que estava no bom caminho.
Um trabalho para Sherlock Holmes
Iniciou-se então, provavelmente, o
restauro mais estranho dum Volkswagen nesta ilha. Partindo praticamente de nada,
vários contactos foram estabelecidos, na esperança da obtenção de informações
deste modelo praticamente desconhecido em Portugal.
De todos eles, o primeiro a dar resposta foi o dono original. Este confirmou a
teoria. O carro nunca tinha sofrido nenhuma modificação, exceptuando a colocação
de cintos, para uma maior segurança. A única peça colocada foi o motor de
arranque. Os únicos trabalhos de carroçaria foram a pintura exterior e um
arranjo duma amolgadela num guarda-lamas.
Com o intuito de obter mais dados, Herr Stocker contactou o museu de Wolfsburg e
graças à extrema atenção de Herr Neefe-Hansmann e de Herr Dr. B. Wiersch,
muitas dúvidas foram tiradas.
A substituição dos elementos cromados por pintados, a presença de pára-choques
cromados e dos frisos ao longo da carroçaria, era facilmente explicada: os
materiais pintados seriam para tornar os custos mais baixos, apesar da presença
de alguns componentes cromados, que eram considerados como extras. Isto tudo foi
confirmado por fotografias e documentos gentilmente cedidos pelo museu.
É de salientar o facto de nem estes saberem quantos carros destes foram construídos.
Apenas disseram que eram montados com os excedentes das séries mais antigas,
com o mínimo de extras possíveis e normalmente vendidos ao Exército Alemão
ou a outras instituições governamentais. Bem poucos eram vendidos ao povo alemão
e ainda menos exportados. O luxo era praticamente inexistente e muitas peças
tinham a referência “111” em vez do tradicional “113” dos modelos “Deluxe”.
Tiradas as dúvidas, restavam as dificuldades de encontrar material correcto. As
forras das portas e dos tapetes que se encontravam no interior da viatura são
os mesmos. Foram simplesmente lavados.
A carpete e o forro do tecto foram adquiridos através da “Himmel Service”.
O estofamento foi o maior problema, pois o tecido não existia em lugar algum.
Novas pesquisas revelaram-nos que este tipo de tecido foi utilizado na mesma época
nos VW “Fridolin”, as carrinhas feitas exclusivamente para os Correios Alemão
e Suíço. Mas o problema mantinha-se.
Finalmente surgiu uma solução, vinda dum amigo do Sr. Andrade em Portugal
Continental. O Sr. Abel Coelho era outro grande fã dos “Carochas” e
conhecia um proprietário de uma fábrica de têxteis. A sua persistência junto
do dono da fábrica com uma amostra do tecido foi crucial para o fabrico do
mesmo. No entanto, foram necessários dois anos para a sua chegada à Madeira. O
resultado final foi espantoso e o melhor possível: o novo e o velho eram um só!
O Restauro
Apesar de todas estas pesquisas, o restauro foi iniciado. A carroçaria foi
retirada do chassis e ambos completamente decapados. Qualquer traço de ferrugem
foi eliminado. É de realçar que não foram muitos. De salientar igualmente que
todos os guarda-lamas, portas, capots e fundos são os mesmos.
A pintura aplicada na carroçaria completa foi idêntica à original, o cinzento
Fontana L 595. Os supostos elementos cromados foram igualmente retocados em
cinzento aço, outra cor original de referência L 328.
Algumas borrachas foram substituídas, muitas delas apenas queimadas pelo Sol.
Os estofos foram desmontados, pintados e forrados com o novo tecido, sendo a
napa a original de fábrica.
A originalidade obrigou a que os cintos fossem removidos, dando a revelar a
inexistência de encaixes originais para os mesmos no chassis. Nenhum pormenor
foi deixado ao acaso
1998 – O Fim do puzzle
Em Agosto, após a chegada do tão ambicionado tecido, o “Ave Rara” foi
encaminhado para a inspecção automóvel, onde passou sem nenhum problema.
Era assim o fim dum longo percurso.
Nessa altura o casal Stocker veio à Madeira e não queria acreditar. A reacção
da antiga dona foi a de pô-lo a trabalhar e as lágrimas não tardaram a
rolar-lhe pela face.
O Sr. Andrade não sonhava no que estava a meter-se quando comprou semelhante
carro. A sua paixão aumentou nestes últimos anos, tendo já adquirido outros
“Carochas”. Apesar de tudo, o Standard é o preferido pelos filhos.
A menina alemã arranjou sem dúvida alguma um bom “Padrasto”!
Em 1999 saiu um pequeno artigo na Super VW e na Volksworld sobre o carro. O Boxer, do VW Clube de Portugal, de Maio/Junho do mesmo ano também trouxe o artigo, mas na integra .
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